Exposição de Ana Gonçalves. Palavras da artista sobre o seu trabalho.




"A minha vida a tecer

 

Unir restos e desperdícios, enovelar, restaurar, encadernar e coser.

Rasgar roupa poída, e dar função às tiras de tecido. Guardar pedaços de tecidos em sacos de pano. Fazer coisas novas de tecidos usados. Fazer coisas sobre coisas, fazer sobre aquilo que já está feito ou meio-desfeito.

Aprendi a tecer texturas e estruturas. Fui admitida num atelier que passou a ser a minha casa. Tinha início aqui o meu mester que teria uma longa primeira fase. O meu mestre tecelão, Honorato Simões, ensinou-me a arte de tecer e sobre o que vim a perceber que de wabi-sabi se tratava. Repito gestos de então, com um prazer novo e meu, o prazer de repetir e simplificar, neste enfoque do gesto e da mão que toca, puxa, empurra.

Seduz-me a sensação de camada sobre camada; gosto da palavra layer; gosto de pensar em palimpsesto e em maiêutica, assim descobri o loudel de D.João I.

Acredito que Louise Bourgeois gostaria de ter conhecido, e até mesmo vestido, colado à pele, o loudel de D.João I.

Transformar coisas em outras coisas. Coser e descoser. Tecer e destecer. Fazer e desfazer.

Faço tributos aos meus mestres com quem comecei a olhar e ver, a unir e a ligar.

Depois de ter sido admitida no atelier da Infante Santo 345, fui admitida na Escola António Arroio como professora de alunos desde os 12 anos até ao ensino de adultos, noturno, com idade ilimitada. Aceitei tudo com empenhamento e numa atitude de partilha. Partilhar o que aprendera, vivia e  experimentava todos os dias – A Antropologia e Etnografia, o trabalho de atelier, as viagens de investigação e formação de norte a sul de Portugal; as viagens a Escolas e Museus pela Europa, os livros, o trabalho de construção de teares e de tecer, tingir, fiar, coser, desenhar, pintar, sem parar.

Anos de uma intensa, laboriosa e permanente atividade. Fazer e aprender,  saberes que se fazem, tirar conclusões, descobrir. Lembro-me de falar com um professor de Filosofia sobre como trabalhava com os alunos e achar que era uma maiêutica aquilo que eu tentava praticar. Lembro-me de estudar o que era palimpsesto e psicogeografia e de irmos ter à noção, em mim recorrente, de camada, de vida, de realidades, uma depois da outra, uma sobre a outra, dando origem a uma nova ideia ou objeto. São conceitos que nunca deixaram de me acompanhar na minha vida e na minha prática. Fazer parte é um privilégio e uma inspiração permanentes. Transmitir experiências até ao limite e receber tudo em troca. São tão conscientes quanto intuitivos esses gestos que servem os processos."

Ana Gonçalves

 



Exposição - Ana Gonçalves ⤳ Gestos

⤳ Respondo a perguntas, se as houver, falo de como se comportam e o que nos dizem os materiais, as ferramentas e os equipamentos.
Seduz-me a sensação de camada sobre camada; gosto da palavra layer; gosto de pensar em palimpsesto e em maiêutica, assim descobri o loudel de D.João I.
Acredito que Louise Bourgeois gostaria de ter conhecido, e até mesmo vestido, colado à pele, o loudel de D.João I.
Transformar coisas em outras coisas. Coser e descoser. Tecer e destecer. Fazer desfazer.

Ana Gonçalves vive e trabalha em Lisboa. Formação no atelier de Gisella Santi de 1976 a 1984 em artes e técnicas têxteis. Licenciatura em Antropologia Cultural pela Universidade Nova de Lisboa, em 1995, com tese sobre simbolismo nos têxteis timorenses. Mestre em Estudos Curatoriais pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, em 2009, com tese sobre "Lugares e Campos Visuais". Professora da especialização em Têxtil na Escola António Arroio de 1981 a 2024.
Desenvolveu trabalho de campo na área têxtil no país e na Europa. Em 1993-2000 colaborou com designers Helena Cardoso, Manuela Gonçalves e Filipe Faísca e com os escultores Ângela Ferreira e Sérgio Taborda.
Em 2003/04 coordenou o Projeto Rotas Têxteis - Património e culturas locais - Pesquisas e levantamento. Fez exposições individuais em Lisboa na Associação Cultural Manobras, no Museu do Traje, na Escola António Arroio, no Clube 50, Associação Cultural, no Sismógrafo com Sofia Magalhães e na Bienal de Joalharia Contemporânea com Maria José Oliveira.
Tem participações na Contextile, Guimarães - Arte Têxtil Contemporânea. Entre 2006 e 2008 participou na pesquisa e concepção do Projecto Curatorial "A Festa Acabou", no Bairro da Quinta da Vitória com a participação dos moradores e construção do Mapa Têxtil do Bairro.
Formadora em Artes Tradicionais e Etnografia Portuguesa de grupos de minorias em áreas suburbanas e rurais em Portugal.
Entre 2021 e 2024 participa em exposições colectivas e prossegue o seu trabalho de atelier em colaboração com outros artistas e designers experimentando materiais, técnicas e formas.
Desenvolve projectos colaborativos site-specific.Desenvolve e estimula práticas artísticas experimentais com preocupação de diálogo entre gerações e dirigidas a pessoas institucionalizadas. Desenvolve e sistematiza trabalho de organização de arquivo e desenho técnico de têxteis.Participa em vários projectos curatoriais.

Inaugura a 16 de janeiro pelas 18h30 e fica patente até ao dia 8 de fevereiro de 2024.

INAUGURAÇÃO: 16 JAN
HORA: 18H30 - 20H00
LOCAL: Rua Rebelo da Silva 71-A, Lisboa.

⤷  Visitas mediante marcação prévia, através do e-mail lostra.cultural@gmail.com

Até breve.

ação.cultural

Comentários

Mensagens populares