Costurar rotas

 


Se há coisa que tenha aprendido com os meus pais, foi a mudar de rota. Ainda não tínhamos começado a aquecer o lugar num sítio, já estávamos a meter tudo dentro de caixas para irmos a outro lugar, como fugitivos que não éramos. Ou melhor, a nossa fuga era para a frente, em busca de melhores condições, seguindo um militar que era o meu pai. Ele mostrava-me, no mapa, o caminho para a nova terra (talvez por isso ainda hoje goste tanto de mapas...) , a minha mãe ensinava-me, nos vestidos, como preencher as bainhas descosidas, uma espécie de estradas interrompidas que era preciso alinhar com a agulha. Na altura não gostei, nem das constantes partidas, nem de fazer bainhas. Ainda hoje resisto a umas e a outras, mas quando a viajante relutante e a costureira contrariada se põem ao caminho, na estrada ou no tecido, adoro a viagem, adoro a chegada e o regresso, digo, o remate. Prometo a mim mesma que voltarei com frequência ao ponto e à viagem, ao ponto da viagem ou da viragem, mas da próxima repito o ritual: resistência, decisão, adoração. Talvez seja mesmo assim e talvez seja melhor assim. Que sabemos nós do que ignoramos ou apenas não conhecemos?

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